2as Maiores à Conversa com Joana Bezerra: Música Como Forma de Existir

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Desde muito jovem, Joana Bezerra tem vivido a música como missão e expressão íntima de quem realmente sente a arte no corpo e na alma. No Concerto Final das Bolsas Yamaha Music Europe Foundation 2025/26, no Porto, a sua flauta tornou-se ponte entre emoção e intenção, revelando um percurso que transforma som em significado.

YAMAHA: Como foi o teu primeiro contacto com a música? Há algum momento especial que sintas que marcou verdadeiramente esse início?

JOANA BEZERRA: O meu primeiro contacto com a música aconteceu aos nove anos, quando ingressei na escola de música da banda filarmónica da minha comunidade. Desde o primeiro momento, a flauta destacou-se como o instrumento com o qual me identifiquei de forma imediata e intuitiva. Senti, com uma convicção rara para aquela idade, que o meu caminho passaria por ali.
O momento decisivo surgiu alguns anos mais tarde, por volta dos catorze ou quinze anos, quando realizei os meus primeiros solos em concerto. A experiência de estar em palco, exposta, despertou em mim uma consciência clara de vocação. Percebi, nesse instante, que queria dedicar a minha vida a esta arte.

Joana Bezerra

YAMAHA: Quais são as tuas maiores influências musicais — artistas, professores ou experiências — e de que forma moldaram o teu percurso?

JOANA BEZERRA: O que mais marcou o meu percurso foram as pessoas que nele se cruzaram comigo. Tive o privilégio de encontrar professores que moldaram profundamente a minha formação, tanto musical como humana. O professor Henrique Fernandes, o meu professor no ensino secundário, foi determinante na construção das minhas bases técnicas e na formação do meu caráter enquanto músico. A sua orientação foi estruturante e continuará a ser uma referência permanente no meu percurso. A professora Raquel Lima, com quem trabalho atualmente, tem sido incansável na exigência e no estímulo constante à superação. A sua energia e confiança são um motor diário, desafiando-me a ultrapassar limites e a procurar sempre um nível superior de maturidade artística. E o professor Fernando Ramos, no contexto da música de câmara, acrescentou uma dimensão particularmente reflexiva ao meu entendimento da música. A forma como pensa e comunica a arte levou-me a aprofundar a escuta, a intenção e a consciência estética.

YAMAHA: O que representa a música na tua vida hoje? É mais disciplina, refúgio, expressão… ou tudo ao mesmo tempo?

JOANA BEZERRA: A música é o eixo estruturante da minha vida. Sempre foi um espaço de recolhimento e reencontro interior, mas hoje é também intensidade, pulsação e compromisso. É a forma mais autêntica que tenho de existir e de comunicar aquilo que, claramente, não consigo traduzir por palavras.

YAMAHA: O que sentiste quando soubeste que tinhas sido selecionada para o Concerto Final Bolsas de Estudo Yamaha?

JOANA BEZERRA: A notícia apanhou-me de surpresa. Li a mensagem várias vezes antes de assimilar plenamente o que estava a acontecer. Quando a realidade se tornou evidente, senti uma profunda alegria e um sentimento de validação muito especial para mim.

Joana Bezerra

YAMAHA: Podes contar-nos um pouco sobre a tua experiência neste programa?

JOANA BEZERRA: A experiência foi extremamente enriquecedora. Para além do elevado nível artístico dos participantes, houve um ambiente de respeito e partilha que tornou tudo ainda mais especial. A equipa que nos acompanhou demonstrou uma proximidade e uma disponibilidade que contribuíram para um clima de confiança. A energia e a boa disposição do Senhor Miguel e do Senhor Rui, que nos acompanharam durante o dia, fizeram-me sentir “em casa”. E, claro, tocar perante flautistas de referência foi simultaneamente desafiante e estimulante.

YAMAHA: Houve algum desafio recente que te tenha feito crescer particularmente como músico ou como pessoa?

JOANA BEZERRA: Recentemente enfrentei a perda de alguém muito próximo. Situações como esta obrigam-nos a reavaliar prioridades e a confrontar a fragilidade do tempo.
Esta experiência trouxe-me uma maior consciência do que é essencial. Como a música é o meu principal meio de expressão, o Concerto Final das Bolsas assumiu, para mim, um significado íntimo de homenagem.

YAMAHA: Onde gostarias de estar musicalmente daqui a cinco ou dez anos?

JOANA BEZERRA: Imagino-me a integrar uma orquestra. Tenho interesse em alargar horizontes e abraçar contextos diferentes, dentro e fora de Portugal, que me proporcionem experiências, acima de tudo, desafiantes. A prática orquestral é a dimensão que mais me realiza neste momento, pela intensidade do trabalho coletivo e pela profundidade interpretativa que exige. É nesse contexto que sinto poder evoluir e contribuir de forma mais plena.

YAMAHA: Que tipo de impacto gostavas de ter através da tua música — nas pessoas, na sociedade ou na cultura?

JOANA BEZERRA: Gostaria que a minha música despertasse emoções genuínas e diversas, capazes de tocar cada pessoa de forma singular. Mais do que impressionar, procuro inspirar. Se quem escuta sair transformado, ainda que de modo subtil, e motivado a criar ou a agir com maior consciência, então o propósito cumpre-se.

Joana Bezerra

YAMAHA: Se pudesses colaborar com qualquer artista ou tocar em qualquer palco do mundo, qual escolherias — e porquê?

JOANA BEZERRA: Seria um sonho subir ao palco da Berliner Philharmoniker ao lado de Emmanuel Pahud e Egor Egorkin, músicos que admiro profundamente. Trata-se de uma das orquestras de maior prestígio internacional, e partilhar esse palco com artistas de tal dimensão seria a concretização de uma aspiração maior.

YAMAHA: Que conselho darias ao teu “eu” mais novo, que estava agora a começar na música?

JOANA BEZERRA: Nem todas as opiniões merecem o mesmo peso. Aprender a distinguir o essencial do acessório é fundamental. O foco e a escuta interior são os pilares do crescimento.

YAMAHA: O que dirias a outros jovens músicos que sonham seguir este caminho, mas que por vezes duvidam de si próprios?

JOANA BEZERRA: A dúvida faz parte do percurso artístico. O importante é que não se transforme em bloqueio. A confiança constrói-se com trabalho consistente, e a persistência é tão determinante quanto o talento. É preciso continuar, mesmo nos momentos de incerteza, porque o amadurecimento surge desse confronto.

YAMAHA: Para ti, o que significa “ter sucesso” na música?

JOANA BEZERRA: O sucesso não se resume a prémios ou reconhecimento público, embora a valorização profissional seja relevante. Para mim, sucesso é poder viver da música mantendo integridade artística. É sentir que cada interpretação é honesta, que há comunicação verdadeira com o público e que o processo de crescimento nunca se esgota.

COMPLETA ESTA FRASE: A MÚSICA ENSINOU-ME QUE... o silêncio e o som têm exatamente o mesmo valor quando sustentados por intenção. Ensinou-me a importância do equilíbrio, da presença e da responsabilidade de transformar cada gesto artístico numa expressão de verdade.

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